Gosto muito de conversar com a Natasha (para quem não conhece, uma das meninas da Taberna) . Aquele aspecto cuidado e abonecado, roçando muitas vezes a superficialidade, esconde uma mulher inteligente e erudita, com quem gosto de trocar ideias que vão para lá “da espuma dos dias” como diria o meu amigo taberneiro António Luís.
Ontem, madrugada dentro, enquanto a Natasha fechava as contas do dia e eu repunha alguns stocks em falta, a rapariga, do nada, sai-se com o seguinte comentário: “Eu acho que as crises são inventadas”.
Com a cabeça dentro do frigorífico, não percebi completamente o que a Natasha disse:
- Diz!?
- Estas crises de que tanto se fala, na televisão, na rádio e nos jornais…é tudo inventado…
Eu pensei naquilo dois ou três segundos e respondi:
- Mas achas que estes cortes salariais, o desemprego, os despedimentos cada vez mais facilitados não são reais? É tudo inventado?
A resposta que a Natasha me deu foi uma autêntica lição de economia, que me deixou de boca aberta e me ficou integralmente gravada na memória, pela lucidez da análise e, sobretudo, pela simplicidade com que me fez ver o seu (agora também meu) ponto de vista:
- Não, Zé. Isso tudo que tu disseste está a acontecer. Só acho é que estas crises, de que nunca saímos (pelo menos aqui em Portugal) são pensadas muito antes de acontecerem e feitas para provocar os efeitos que agora são visíveis em Portugal e um pouco por todo o mundo: despedir com mais facilidade e tirar direitos a quem trabalha. Daqui a pouco tempo, acredita, nos dirão que uma nova crise (em Portugal continuará a ser a mesma) obrigará a tomar mais medidas, como cortar o subsídio de Natal e de Férias para que os patrões, coitados, se possam aguentar. Até chegar o momento em que ter um salário já será um privilégio, como noutros tempos.
Sentados ao balcão, cada um com a sua cerveja na mão, lá estivemos a reflectir e a conversar à volta das condições em que viviam os trabalhadores das fábricas no século XIX, onde os horários de trabalho eram aqueles que o patrão quisesse, em que ter um emprego era uma dádiva divina, sendo que Deus, neste caso, era o benemérito patrão que às vezes fazia o favor de pagar aos trabalhadores.
Estaremos assim tão longe do século XIX?














